Percepções dos Profissionais de Saúde acerca da Aids na Velhice
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Percepções dos Profissionais de Saúde acerca da Aids na Velhice
Health Professional Perceptions about Aids in Old Age
Isabel Cristina Vasconcelos de Oliveira ? Universidade Federal da Paraíba.
Profª Dra Ana Alayde Werba Saldanha ? Universidade Federal da Paraíba.
Ludgleydson Fernandes de Araújo 3 ? Universidade Federal da Piauí.
Correspondência para:
Isabel Cristina Vasconcelos de Oliveira
E-mail: isabel_cris@hotmail.com
Original em:
Oliveira, I. C. V., Araújo, L. F. e Saldanha, A. A. W. (2006). Percepções dos Profissionais de
Saúde acerca da Aids na Velhice. Jornal Brasileiro de Doenças Sexualmente Transmissíveis,
18(2), 143-147. ISSN: 0103-0465.
Resumo
Introdução: O aumento progressivo no número de casos de HIV/AIDS no contexto da velhice
traz a necessidade de estudos sobre as especificidades do atendimento a esta faixa etária.
Objetivos: Analisar as percepções dos profissionais de saúde acerca da AIDS na velhice,
visando identificar os aspectos que influenciam no atendimento aos pacientes idosos
soropositivos para o HIV. Método: A amostra foi constituída por 20 profissionais de saúde de
diversas especializações, que atendem pacientes idosos. Para coleta de dados utilizou-se
entrevista semi-estruturada, composta, submetidas à análise de conteúdo temática. Resultados:
Emergiram 5 categorias temáticas: Concepção da Aids; Fatores de Risco; Solicitação do Teste;
Comunicação do Diagnóstico e Dificuldades no Atendimento. Verificou-se a associação das
concepções da AIDS na velhice a temáticas negativas, como decepção e preconceito e, como
via de infecção os procedimentos médicos, tais como transfusões de sangue, e práticas sexuais
promíscuas. A solicitação do teste anti-HIV para idosos deve ocorrer somente mediante
sintomatologia característica da doença, observando-se divergências quanto a forma da
devolutiva do diagnóstico em caso positivo: se comunicação ao paciente ou a família.
Relataram ainda não distinguir seus pacientes quanto a condição de soropositividade, não
havendo, portanto, dificuldades particulares desta população. Conclusão: Evidenciam-se
concepções associadas a estigmas e preconceitos, igualando o conhecimento científico ao
senso comum, podendo interferir em suas práticas de atendimento. Todas estas questões
remetem às bases do fenômeno AIDS, colocando a descoberto algumas contradições que
determinam as principais dificuldades para o trato psicossocial do paciente, evidenciando que
por mais que as equipes profissionais estejam instrumentalizadas técnica, teórica e
tecnologicamente, sua compreensão do fenômeno se restringe ao seu corpo especializado e a
ação se ressente na abordagem das necessidades emocionais do paciente.
Palavras-Chave: Aids; Idosos; Profissional de Saúde.
Abstract
Introduction: the progressive increase in number of HIV/AIDS cases in old age brings the
necessity of studies about the specificities in the attendance to this group of people Objectives:
Analyze health professional perceptions about Aids in old age, aiming to identify the aspects
that influence in the attendance to soropositive old patients to HIV/AIDS. Method: The
sample was constituted by 20 health professionals of different specializations, that attend old
patients. To collect the data, a semi-structured interview was used, and went under a thematic
content analyze. Results: 5 thematic categories were brought: AIDS conception; Risks factors;
test solicitation; communication of the diagnosis and difficulties in attendance. We verified the
association of Aids in old age conceptions to negative themes, such as deception and prejudice
and, as the infection way, medical procedures, such as blood transfusion, and promiscuous
sexual behavior. The anti-HIV test solicitation must be done only in cases of characteristic
symptomatology of sickness, observing divergences how to give away the positive diagnosis:
whether communicate it to the patient or to his family. They said they don?t distinguish
patients by their soropositivity condition, and so, there are no particular difficulties to this
population. Conclusion: It was evidenced conceptions associated to stigmas and prejudices,
equaling the scientific knowledge to common sense, interfering in their attendance exercise.
All these questions refer to AIDS basis, putting in evidence some contradictions that
determinate the main difficulties in the social abordage of the patient, showing us that,
although the professional teams are instructed in technique, theory and technology, their
comprehension of this phenomenon is restricted to the their specialized knowledge and the
action resents in the abordage of the patients? emotional necessities.
Key-Words: Aids; Oldness; Health Professional.
Percepções dos Profissionais de Saúde acerca da Aids na Velhice
Health Professional Perceptions about Aids in Old Age
A AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) não se configura apenas como uma
doença orgânica. Desde seu surgimento, apresenta-se como um evento psicossocial, cujo tema
está geralmente arraigado aos estigmas, ao preconceito e aos sentimentos depreciativos. A
velhice, por sua vez, também carrega consigo seus próprios rótulos (estereótipos negativos),
os quais possuem componentes preconceituosos e estereotipados de uma fase do
desenvolvimento humano marcado por acontecimentos negativos1. Associar estas duas
temáticas pode ser vista como uma tarefa desafiadora, pois contraria as representações de cada
objeto (velhice associada à ?assexualidade?). Contudo, as estatísticas atuais têm mostrado que
ambas temáticas estão cada vez mais correlacionadas, fazendo-se presentes nas estatísticas
epidemiológicas.
De acordo com o Ministério da Saúde2, houve uma mudança no curso da epidemia de
AIDS no Brasil, no qual três grupos distintos, adultos jovens, usuários de drogas injetáveis e
crianças abaixo de cinco anos de idade infectadas pela chamada transmissão vertical,
apresentam uma queda constante na sua incidência. Em contrapartida, verificou-se que está
cada vez mais freqüente o número de casos de AIDS na faixa etária acima dos 50 anos de
idade. Segundo os últimos dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde, existe no Brasil
cerca de 31.356 casos de AIDS em pessoas com 50 anos de idade ou mais, devendo-se
destacar ainda a subnotificação existente, podendo-se concluir que este número pode ser bem
maior.
Dessa forma, em decorrência do progressivo aumento do número de casos de HIV
(Vírus da Imunodeficiência Humana)/AIDS nesta faixa etária, observa-se uma necessidade de estudar este novo contexto, com o intuito de fornecer subsídios concretos para a avaliação do
desempenho profissional no atendimento aos portadores do HIV e pacientes com AIDS, e para
elaboração de medidas efetivas com a finalidade de promover, através de uma abordagem
biopsicossocial, um melhor acolhimento para as pessoas contaminadas pelo vírus, como
também para seus familiares, parceiros sexuais, profissionais de saúde e indivíduos que direta e
indiretamente lidam com a mesma.
Partindo destes pressupostos, este projeto visa à ampliação da estrutura de suporte
psicológico para portadores do HIV e pacientes com AIDS, justificada pela complexidade do
atendimento, cuja doença exige uma estrutura integrada e ampliada de forma a complementar a
abordagem multidisciplinar atualmente dispensada ao paciente.
Para tanto, objetiva especificamente identificar e estudar as representações dos
profissionais de saúde acerca da AIDS na velhice, visando analisar os determinantes
sócio-afetivos que influenciam no trabalho com pacientes idosos soropositivos para o HIV e
identificar as barreiras que estes enfrentam para o atendimento desta população específica.
Abordar o tema ?saúde? através de uma abordagem psicossocial não se constitui como
uma tarefa simplificada, tendo em visto as amplas e controversas discussões que este tema
carrega consigo. O avanço tecnológico, ao mesmo tempo em que promoveu benefícios com a
descoberta de novos recursos para o diagnóstico e o tratamento de doenças, influenciou
diretamente na formação dos profissionais de saúde e na maneira com que estes abordam seus
pacientes, desvitalizando, dessa forma, a relação afetiva entre eles. Em outras palavras, há uma
preocupação voltada para a doença, enquanto problema a ser revolvido, em detrimento de uma
sensibilidade e valorização da necessidade de suporte aos pacientes.
Esta visão mecanicista do ser humano está sendo repassada aos profissionais de saúde
desde os ensinamentos mais elementares do seu processo de formação acadêmica, estando ausente, portanto, uma concepção mais abrangente da saúde enquanto eixo integrador, de forma a condicionar os profissionais ao modelo biomédico, que subestima os aspectos psicológicos e sociais no tratamento de indivíduos3.
Todos estes novos recursos diagnósticos e terapêuticos não refletem modificações
somente na forma de atendimento a pacientes. As implicações deste cenário moderno podem
ser observadas também na perda da autonomia, na remuneração, no estilo de vida, no
comportamento ético dos profissionais e, especialmente, na saúde física e mental deles
próprios.
Neste âmbito, as conseqüências do panorama atual da saúde no país incitam reflexões
sobre a qualidade na forma de atendimento aos pacientes, especialmente àqueles que se
apresentam com todos esses problemas maximizados, como é o caso de idosos soropositivos.
A esta população específica, as demandas diferenciadas exigem uma abordagem peculiar, que
muitas vezes são negligenciadas mediante a objetivação do tratamento, que valoriza o
conhecimento técnico e teórico e a competência social.
Associados a toda essa problemática, os estigmas que acompanham as pessoas
soropositivas idosas configuram-se, ainda, como um bloqueio para que estas sejam assistidas.
A complexidade dessa forma de atendimento acarreta sobre o profissional de saúde um forte
desgaste psicológico, além dos medos e dos sentimentos de desconforto criados em
decorrência da potencialidade de contaminação pelo HIV5.
Neste contexto, este estudo visa investigar a percepção dos profissionais de saúde que
lidam com esse público, com a finalidade de identificar de que maneira essas concepções
influenciam na abordagem a tais pacientes.
Método
O presente trabalho constituiu-se como um estudo de campo de cunho qualitativo,
realizado na cidade de João Pessoa/ PB, no período de novembro de 2005 a abril de 2006, cuja
amostra foi constituída por 20 profissionais de saúde, selecionados de forma não-probabilística
e acidental, tendo como único critério para participação do estudo, ter em sua prática de
atendimento, pacientes idosos.
Os profissionais entrevistados apresentaram idade variando entre 24 e 65 anos, com
média correspondente a 37,8 anos. As especialidades dos mesmos foram as mais diversas
(traumato-ortopedia, clínica médica, saúde coletiva, periodontia, etc.), contudo, para atender
aos objetivos propostos neste estudo, eles foram subdivididos somente em especialistas, ou
não, em geriatria/gerontologia.
Para coleta de dados utilizou-se uma entrevista semi-estruturada, composta por cinco
perguntas subjetivas acerca da Aids no contexto da terceira idade. O material transcrito das
gravações das entrevistas foi submetido à análise de conteúdo temática, de acordo com a
proposta de Figueiredo et al6.
Esta pesquisa foi realizada em conformidade com os aspectos éticos pertinentes a
pesquisas envolvendo seres humanos (Resolução no 196/96 Sobre Pesquisa Envolvendo Seres
Humanos, Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Saúde, 1996), após ter obtido um
parecer favorável fornecido pela Comissão de Ética Médica da UFPB.
Resultados e Discussão
A partir dos discursos dos entrevistados, emergiram 5 categorias temáticas: (1)
Concepção da Aids, obtida através da questão: ?Como você vê a questão da Aids na velhice??;
(2) Fatores de Risco, decorrente do item, ?Na sua opinião, qual a maior vulnerabilidade do
idoso??; (3) Solicitação do Teste, evocada a partir da questão: ?O que você acha de ser
solicitado o teste anti-HIV para pacientes idosos como exame de rotina??; (4) Comunicação
do Diagnóstico, decorrente do: ?Como você acha que os resultados devem ser repassados aos
idosos??; e (5) Dificuldades no Atendimento, a partir da questão: ?Quais as dificuldades que
você encontra/encontraria no atendimento ao idoso soropositivo??. Todas estas categorias
apresentaram subcategorias significativas e distintas.
Categoria 1 ? Concepção da Aids
A primeira subcategoria, definida como ?Morte?, propõe a visão que os profissionais
têm da falta de perspectiva dos idosos, exacerbada pela infecção pelo HIV, como pode ser
observada no discurso abaixo:
?Se os dias deles já estariam contados, imagina tendo AIDS?
(Odontóloga 1, 24 anos).
Esta visão, de certa forma, já antecipa as temáticas correlatas com a subcategoria
seguinte, classificada como ?Impacto Negativo?, que se configurou como a mais significativa
na Concepção da Aids. Sugere que a Aids nos idosos apresenta-se como um grande problema
de saúde, por trazer muita tristeza e sofrimento, conforme os seguintes discursos:
?Eu vejo como um terror (...) é uma decepção? (Médica, geriatra,
55 anos).
?Eu vejo como uma coisa triste que não deveria acontecer?
(Odontóloga 2, 51 anos).
?Eu vejo muito complicado? (Enfermeira 1, 65 anos).
A terceira subcategoria emergente, ?Preconceito?, revela que os profissionais acreditam
que a Aids vem a maximizar o preconceito já existente com relação à idade, destacando não só
o preconceito da sociedade para com eles, como também deles com eles mesmos. Seguem os
discursos:
?Na terceira idade, soma o preconceito com relação à idade?
(Fisioterapeuta 1, gerontóloga, 28 anos);
?...enfrentam um preconceito muito grande da sociedade?
(Fisioterapeuta 2, gerontóloga, 27 anos);
?...e o preconceito que o velho tem de usar, de utilizar métodos
preventivos neles? (Fisioterapeuta 3, 28 anos);
?... a velhice já traz muito preconceito né. Preconceito na família
e a pessoa pensa que vai dar trabalho. E mais pegando a AIDS, aí
lascou mesmo. Fica mais difícil ainda pra família aceitar aquele
velho dentro de casa dando trabalho, e além do mais com uma
doença contagiosa? (Odontóloga, 52 anos).
A ?Carência de Informação?, quarta subcategoria, está associada à falta de divulgação
de políticas públicas sobre a incidência desta doença nesta faixa etária em específico. Portanto, sugere acreditar que o aumento no número de casos é decorrente da falta de campanhas
destinadas ao esclarecimento da possibilidade dos idosos também contraírem o vírus da Aids.
?Eu vejo atualmente relacionada à falta de informação?
(Psicóloga, gerontóloga, 34 anos).
?Então pode até ser falta de informação? (Enfermeira 2, 42 anos).
Por fim, surgiu como ?Recorrente? a percepção dos profissionais, no qual considerava
como ?normal? um idoso apresentar O HIV/AIDS:
?É a coisa mais normal entre aspas que você pode ver, é um
senhor de 60, 70 anos ser aidético? (Fisioterapeuta 4, 25 anos).
Ainda que não se constituam como subcategorias emergentes significativas, é relevante
destacar a visão de duas profissionais que acha improvável a contração do HIV por um idoso:
?...a velhice, em si, ela não está muito sujeita a contrair o HIV?
(Odontóloga 4, 58 anos).
?Normalmente a gente não acha muito normal um idoso
apresentar o vírus da Aids? (Fisioterapeuta 5, 25 anos).
Com estes relatos, pode-se perceber que a concepção dos profissionais de saúde acerca
da AIDS na velhice, associada ao preconceito e estereótipos negativos, corrobora os achados
das pesquisas de Ribeiro et al7 e Araújo & Carvalho1. De acordo com a primeira pesquisa, o
preconceito emergido nos profissionais de saúde está relacionado ao estigma maior que a Aids
carrega consigo, através de tabus como sangue, promiscuidade e traição. Todos estes temas
apresentaram-se como discursos freqüentes nas entrevistas, constituindo subcategorias
representativas. A pesquisa seguinte1 refere-se à perspectiva preconceituosa e estereotipada da
velhice que, em consonância com as temáticas evocada pela Aids, maximizaram os relatos dos
profissionais entrevistados.
Um aspecto relevante a ser considerado nestes resultados foi a similitude das respostas
dadas pelos profissionais graduados há pouco tempo, em comparação com as dos profissionais
com já razoável tempo de profissão. Essa similitude na percepção dos profissionais sugere uma
falta de atualização no processo de formação acadêmica/profissional, podendo comprometer
diretamente a qualidade do atendimento à determinada população, por este estar, ainda,
estagnado a um conhecimento contaminado por valores estigmatizados e, sobretudo,
preconceituosos.
Neste contexto, apesar dos resultados desta pesquisa corroborar com a proposta da
literatura já existente, torna-se preocupante para os pacientes se submeterem à profissionais
que apresentam um preconceito latente em relação aos idosos, exacerbado pela condição de
soropositividade.
Categoria 2 ? Fatores de Risco
A segunda categoria, Fatores de Risco, produziu 4 subcategorias fortes, na qual 3
destas propõem comportamentos prováveis para a aquisição do vírus, enquanto uma delas
sugere como prática improvável para tais fins.
A subcategoria inicial, denominada ?Promiscuidade?, propõe que o meio mais efetivo
para a infecção pelo o HIV corresponde à via sexual, associada à comportamentos promíscuos,
no qual existem trocas de parceiros e práticas de infidelidade, tal qual propõem estes
profissionais:
?...promiscuidade, de mudança de parceiro, de infidelidade?
(Médica, geriatra, 55 anos).
?...através de alguma relação ilícita? (Odontóloga 4, 58 anos).
?...procura na rua o que não tem dentro de casa? (Odontóloga 2,
51 anos).
A subcategoria seguinte, classificada como ?Transfusão Sanguínea?, corresponde a
forma de transmissão decorrente do exercício de atividades médicas, como a transfusão de
sangue, tal qual propõem:
?Eu acho que mais nos procedimentos médicos, né, tipo uma
transfusão? (Fisioterapeuta 2, gerontóloga, 27 anos).
?A maior probabilidade de o idoso se contaminar com a aids, seria
meio de internamentos em hospitais, através de transfusões,
porque ele não corre tanto risco como os jovens, que está exposto
as drogas, a toda variedade de sexualidade que ele pratica, só isso
mesmo? (Odontólogo 5, 57 anos).
?...através de transfusões de sangue, através de material
contaminado, de enfermeira passando de um canto pra outro, eu
acho, sanitários, ele tem fenda, as sondas urinárias, sondas
também, que colocam no aparelho urinário, infecção de material
hospitalar mesmo, que por mais que seja lavado, sempre fica a
contaminação? (Odontóloga 3, 52 anos).
A terceira subcategoria, denominada ?Sexo sem proteção?, evidencia que os
profissionais acreditam que a via mais efetiva para a infecção pelo HIV seja a sexual,
independente desta estar associada a comportamentos promíscuos ou não:
?Agora ele (o idoso) não usa camisinha, ou por falta de
informação, ou pela falta de costume? (Fisioterapeuta 6,
gerontólogo, 29 anos).
Por fim, a última subcategoria, ?Uso de Drogas?, emergiu não mais como uma via
provável de contágio, mas sim, como um meio que não implica riscos para os idosos, por
acreditarem que
?(...) drogas é um negócio tão distante deles? (Fisioterapeuta 6,
gerontólogo, 29 anos).
Os fatores de risco, segundo os profissionais, complementam de certa forma, a idéia
proposta nos tabus e, ainda, uma noção arraigada aos grupos de risco/vulneráveis. A via de
transmissão ?transfusão sanguínea? implica duas propostas: a primeira corresponde à idéia de
?vítima da Aids?, que está relacionada aos indivíduos que não estariam presentes nos grupos
de riscos e contraíram a Aids ?acidentalmente?; enquanto a segunda proposta remete-se à
aspectos extremamente preocupantes no que concerne à credibilidade do saber científico. O
relato de uma Odontóloga de 52 anos, que acreditava que um meio provável de contaminação
pelo HIV seria através dos ?sanitários e sondas urinárias?, aponta para uma igualdade entre o
conhecimento científico e o senso comum, de forma a interferir nas condições de atendimento
e tratamento dos pacientes, e no foco incidente da transmissão do vírus.
15
Outro ponto que esta categoria evidenciou foi a semelhança nas respostas dos
profissionais especialistas em geriatria/gerontologia, com os relatos dados a partir de
profissionais que não possuíam esta especialização, sugerindo, ainda, uma falta de
direcionamento do curso de especialização para aspectos contemporâneos no contexto da
velhice. A partir dos discursos dos profissionais gerontólogos, pode-se observar uma carência
de informações a respeito de temas como sexualidade ou vulnerabilidade ao HIV, de forma a
igualar o conhecimento destes àqueles que não se submeterem a determinada especialização.
Categoria 3 ? Solicitação do Teste
Esta categoria apresentou respostas contraditórias, tendo em vista que, embora a
maioria dos profissionais alegasse achar importante a solicitação do teste para pacientes idosos
como exame de rotina, foi observado que esta prática não se configura como medida efetiva
nos consultórios e hospitais, conforme pode ser observado no discurso abaixo:
?Eu não solicito porque, não sei. Eu nunca solicitei. A não ser
algumas vezes que ela desconfia de alguma coisa do companheiro
e me pede para eu solicitar. Porque eu sou muito assim a favor do
que o Ministério da Saúde preconiza né. Então ele nunca me
orientou a solicitar na rotina? (Médica, geriatra, 55 anos).
Alguns profissionais destacaram a importância de solicitação do teste apenas mediante
sintomatologia característica da doença, ou frente à desconfiança dos comportamentos dos
parceiros:
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?Se tivesse alguma sintomatologia, algo que viesse a requerer a
solicitar esse exame, eu acho sem problema, agora como exame de
rotina, eu não vejo... se diante da história do idoso existe algum
indício que possa levar a requerer esse exame, certo, mas como
rotina, desnecessário? (Fisioterapeuta 1, gerontóloga, 28 anos).
Ainda que tal episódio apresente-se como idiossincrasia frente a todas as entrevistas, é
relevante destacar a resposta de um profissional quando questionado acerca da solicitação do
teste anti-HIV: ?o que objetiva esse teste?? (Fisioterapeuta 7, 27 anos). Embora este
profissional tenha recebido informações acerca deste teste, sua resposta foi desconsiderada na
análise de conteúdo, tendo em vista que um indivíduo pode apenas posicionar favoravelmente
ou não perante um objeto quando o mesmo tem conhecimento do que este objeto significa.
Ainda que desconsiderada a sua resposta, este episódio vem a consolidar os resultados desta
pesquisa, ao propor uma similaridade entre o conhecimento científico e o senso-comum.
Categoria 4 ? Comunicação do Diagnóstico
Foram observadas 4 subcategorias distintas nesta questão. A primeira delas, classificada
como ?Paciente?, é referente a comunicação do diagnóstico diretamente para o paciente:
?Eu acho que todo paciente deve ter o direito de saber o que tem?
(Fisioterapeuta 5, 25 anos).
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A subcategoria seguinte, ?Família?, corresponde a importância destacada pelos
profissionais para a comunicação para o familiar somente, ou via o familiar. Seguem os
discursos:
?Tem as pessoas mais esclarecidas, uma pessoa que você encontra
uma entrada maior, sempre válido, claro, conversar com ela. Mas
outras que, que, você acha que o melhor caminho é a família, é
filho, é marido? (Fisioterapeuta 2, gerontóloga, 27 anos).
?Eu acredito que deve ser comunicado a família, em primeiro
lugar? (Enfermeira 1, 65 anos).
Foi ressaltada, ainda, a necessidade de comunicação através do ?Profissional de
Saúde?, terceira subcategoria, por este apresentar-se como um suporte especializado para as
possíveis reações dos pacientes:
?... eu acho que já tem um pessoal, nas CTA, que já é bem
treinado, que já é capacitado pra isso aí? (Enfermeira 2, 42 anos).
?... eu creio que seja melhor através de profissional da área, né.
Especialistas, até o próprio clínico mesmo que esteja envolvido
com o diagnóstico dele, ele tem essa possibilidade, desde que ele
entenda a questão do idoso. Não só especialista, mas pode ser um
médico ou um profissional. Em geral eu diria isso, até porque
todos estão envolvidos, e seria contraditório você deixar na mão
apenas de um profissional? (Psicóloga, gerontóloga, 34 anos).
Por fim, emergiu a subcategoria ?Parcimoniosa?, que se refere à comunicação para os
pacientes de forma cautelosa:
?... acho que da maneira mais cautelosa; eu acho que pelo fato de
estar ligado a idosos, a gente tem que estar muito bem trabalhado,
muito bem preparado? (Fisioterapeuta 8, gerontóloga, 27 anos).
Categoria 5 ? Dificuldades no atendimento
Os profissionais relataram não distinguir seus pacientes quanto à condição de
soropositividade, não encontrando, portanto, nenhuma dificuldade no atendimento, ou então,
as dificuldades que encontraria em pacientes idosos ou não, ou soropositivos ou não:
?Acredito que não existe dificuldades não? (Enfermeira 1, 65
anos).
?Mesma dificuldade que eu teria (...) pra atender outro paciente?
(Odontóloga 1, 24 anos).
Apesar de não constituir-se como subcategoria representativa, é importante enfatizar o
preconceito que muitos profissionais de saúde enfrentariam pelos próprios colegas de profissão
por estarem atendendo pacientes soropositivos, tal qual relata esta profissional:
?A única dificuldade é o preconceito das pessoas por saberem que
a gente atende (...), o problema que existe é como eu já conheci
pessoas que enfrentaram isso, e, inclusive, pra tratar do primo, do
irmão, da própria família, e os próprios colegas vizinhos da sala
dela, pediram que ela não atendesse. Porque só em um aidético, só
em um aidético não que esse é um termo feio, só em um
soropositivo tendo acesso ao prédio dela, a sala dela (...), só em
ele ter acesso ao andar dos colegas, já estavam mal vistos, já era
uma pessoa que tava de alto risco, que tava... ou seja, é o
preconceito. O que mais impede o tratamento é o preconceito?
(Odontóloga 2, 51 anos).
A solicitação do teste, a comunicação do diagnóstico e as dificuldades relatadas pelos
profissionais de saúde para o atendimento de uma pessoa idosa soropositiva apresentam-se
como dados novos dentro da pesquisa científica, não existindo, portanto, informações
disponíveis para a comparação com a literatura pré-existente.
Considerações finais
Os resultados apontados por este estudo sugerem a necessidade de um aprofundamento
neste campo, tendo em vista que a Aids na velhice apresenta-se como recorrente na atualidade.
Sugere-se, também, a realização de investigações futuras que avaliem a capacitação
profissional, tanto de estudantes concluintes, quanto de profissionais já graduados, com o
intuito de analisar de que forma o conhecimento científico está sendo transmitido, e se ele está
sendo influenciado por valores pessoais ou se está, ainda, condicionado ao modelo biomédico
tradicional de atendimento.
Como esta pesquisa configura-se como um estudo exploratório no campo das
percepções dos profissionais de saúde acerca da Aids na velhice, compreendem-se, de certa
forma, os relatos pouco fidedignos dos entrevistados com a realidade atual, tendo em vista que
carece de um certo tempo para que haja a atualização com o tema proposto. No entanto, que
este tempo não seja estendido por longos períodos, para que os pacientes não continuem a
serem atendidos com uma qualidade parcial.
Por fim, espera-se que os achados desta investigação possam fornecer subsídios para a
prática gerontológica no âmbito da soropositividade, com o debate acerca das práticas
existentes frente a este fenômeno, de modo que sejam formuladas estratégias positivas de
atendimento e enfrentamento da Aids na Velhice. Sendo assim, contribuindo para uma
melhoria nas práticas dos profissionais gerontólogos das condições objetivas e subjetivas dos
idosos soropositivos, seus cuidadores formais/informais e seus familiares.
Referências
1. Araújo, LF, Carvalho, VAM. Aspectos Sócio-Históricos e Psicológicos da Velhice.
Revista de Humanidades 2005; 6(13): 1-9.
2. Ministério da Saúde. Disponível em: . Boletim Epidemiológico. Acesso
em 01 nov. 2005, às 19h43min.
3. Traverso-Yéper, M, Morais, NA. Idéias e concepções permeando a formação profissional
entre estudantes das ciências da saúde da UFRN: um olhar da Psicologia Social. Estudos
de Psicologia 2004; 9(2): 325-333.
4. Nogueira-Martins, LA. Saúde Mental dos Profissionais de Saúde. Rev Bras Med Trab
2003; 1(1): 56-68.
5. Malbergier, A. Os médicos diante do paciente com Aids: atitudes, preconceitos e
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Rio de Janeiro: Revinter, 2000. p. 76-107.
6. Figueiredo, MAC, et al. Profissionais de Saúde e Aids. Um estudo diferencial. Medicina
1993; 26 (3): 393-407.
7. Ribeiro, CG, Coutinho, MPL, Saldanha, AAW. O atendimento e o tratamento no contexto
da Aids: Representações Sociais de Profissionais e Pacientes. In: Coutinho, MPL,
Saldanha, AAW. Representação Social e Práticas de Pesquisa. João Pessoa: Editora
Universitária/UFPB; 2005. p. 191-209.
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